Liberando devires…

“Escrever nada tem a ver com significar, mas com agrimensar, cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir.” (Deleuze e Guatarri, Mil Platôs, p. 13)

        Fanzines não trazem qualquer tipo de informação. Segundo Deleuze, a informação é a palavra de ordem, é o que deve ser assimilado e obedecido. A arte não é informação porque não transmite mensagem nem ordem, não tem conclusão nem moral da história. A informação é fechada. A arte é aberta. A informação é controle. A arte é liberação.

        Outros tipos de jornais informam. Os zines são só um campo por onde andam imagens e palavras, testando as bordas, medindo o terreno, que alguma hora pode virar campo de batalha, sustentando a contra-informação. No zine não há sequer qualquer importância sobre quem escreve. Temos mais de 8 mil alunos; que diferença faz se foi Bruno ou Isabela quem mandou um poema? Interessa é que em qualquer grupo de 8 mil pessoas há sempre uns cento e poucos que mantêm o campo aberto, aquele campo da resistência, ou do prazer, ou do fazer desinteressado, enfim, o campo da inutilidade artística sem a qual a sociedade da informação ficaria restrita às poucas opções das palavras de ordem. Fanzines são simplesmente máquinas literárias que liberam devires.

Autora: Paula Braga (Professora)

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Utopia

Eu não quero a inquietude proveniente da dúvida, aquela que nos deixa atônitos quando caminhamos vacilantes entre dois cantos da sala, tão efêmera que basta sentarmos numa cadeira para findá-la. O que eu desejo é algo que, em certa medida, esteja fora, mas também dentro de mim. Ao mesmo tempo. Que me não seja totalmente exterior, pois se assim fosse não poderia me ver nele. Mas que também não me seja totalmente interior, pois dessa forma eu simplesmente pararia de caminhar em direção ao mundo. Que eu ache um tipo de espelho, portanto. Mas que eu veja apenas sua superfície refletora, jamais a parte de trás. Isso porque, conforme ando em sua direção, e quando muitas vezes penso que finalmente posso tocar meu reflexo, o vidro consegue se afastar. Sim, o espelho é móvel, mas move-se inteiramente a partir do meu espírito, não importa o resto do cosmos. Que eu continue a caminhar indefinidamente… Pelo menos até que eu taque uma pedra e estilhasse minha visão do futuro…

Autor: Bruno Euzébio Cont (Aluno)

Eu (ainda) acredito em palavras

As palavras são ingênuas e singelas, expressam apenas seus sinônimos e significados, são o que representam, nada mais. As palavras não saem por aí, pura e simplesmente se fantasiando do que não são por diversão ou medo, só são o que nasceram para ser. É fácil acreditar em palavras.
A única falha das palavras – criada pelo ser humano – é a dita interpretação, que consome a pureza e inocência dos vocábulos mais delicados, transformando-os em malignas manifestações da mais baixa natureza humana. A interpretação de quem recebe as palavras é, talvez, a mais branda, por apenas poder refletir sobre o que já lhe foi oferecido, tendo a abençoada limitação dos significados; já a interpretação de quem oferece palavras é da mais cruel e refinada forma de subjeção, pois, ao criar novos sentidos às palavras em seu contexto pessoal, submete seus interlocutores à análises errôneas e impróprias pelo bel prazer de não fornecer o que realmente pretende comunicar.
Acreditar em palavras se torna cada vez mais difícil, pelo trato inadequado que temos com elas, mas ainda persisto e acredito. Ainda acredito em palavras pelo seu doce som de pronuncia, pela grafia caprichosa ou desordenada que lhe concede tanto charme e, principalmente, pela gama inesgotável de mundos que elas podem criar. Acredito em palavras por simplesmente acreditar em sua essência.

Autora: M. Ewen (Aluna)