Medusa

        E ela era toda medusa. Só sua visão lhe deixava como pedra.
“– São como serpentes…”. A frase não lhe saía da cabeça, co-mo que sussurrada por um fantasma. Ecoava pelo quarto e lhe em-baçava a visão, e ele ainda assim, as via. Eram os seus cabelos, ser-pentes de cobre, escorrendo como metal derretido, voando ao re-dor do seu pescoço, mordendo-lhe a nuca, atacando-lhe as costas, revolvendo no seu corpo de menina mulher. Eram seus dedos, ser-pentes finas e frágeis, mas que mordiam as suas costas e que raste-javam pelo seu corpo, nadando em suor. E as pernas dela escorre-gavam pelas suas, serpentes grossas exsudando veneno, apertando seu corpo, jiboias da cor da terra, da cor da cerâmica, da cor do sol se pondo na areia. A língua era uma serpente rubra, pimenta viva e irrequieta, mordia-lhe a própria língua, os lábios, o queixo, os ombros, os braços, o peito. A mordida era como cócegas, e ele ria e arfava, soluçando, pois a graça lhe pinicava a garganta. E ele ria mais alto enquanto enfrentava as serpentes, por que o mesmo fan-tasma sussurrava com uma voz que era igual ao crepitar do fogo: “–… escreverão canções sobre o amor de vocês”.
E era mesmo como um sol entre eles, porque só isso podia ex-plicar o calor, ou isso, ou era fogo com asas e eles morreriam num incêndio, e então eram ambos serpentes, se embolando debaixo da terra (ou dentro do Sol? ele não saberia mais dizer), e então eram os dois uma serpente só rastejando no fogo, e então tinham patas e eram salamandras lambendo o fogo, e suas patas eram serpentes e suas línguas também, e suas bocas destilavam peçonha doce e sal-gada, de açafrão e de canela, de suor e de saudade.
E ele morria enquanto ouvia as palavras que o fantasma, rindo-se dele, lhe dissera uma vez: “–São como serpentes… você verá… e se lembrará do que eu te disser hoje, porque escreverão canções so-bre o amor de vocês, sobre como ela foi a sua vida, e também o seu fim. Como ela foi o tição que acendeu a fogueira e como você deixou de ser lenha fresca para ser apenas o carvão incendiado que sobrou no fim”.
Ele se lembrou de adormecer no fim, mas antes, por dentro, ele concordou com o que o fantasma dissera, e não se importou nem um pouco.

Vítor Torres Freire / Aluno – vitor5torres@hotmail.com

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“Fim de Noite” – por Diego Medeiros

Voltava do seu trabalho como jornalista. Uma mulher tinha enfiado a faca nas costas dum sujeito que havia entrado em sua casa para cobrar dívida de drogas do seu filho. O tal traficante morreu na hora. O jornalista anotava os relatos dos vizinhos, da mulher, do filho e dos policiais numa loquacidade nervosa e num certo desinteresse, era o quinto caso nessa semana.

– O sujeito é o maior vagabundo, seu moço. Não trabalha, não estuda, só dá problema pra mãe dele. É óbvio que isso ia dar… Pode falar? É palavra suja…

– Pode falar sim, não vai pro jornal não. – respondeu sem levantar os olhos do caderno.

– Tava na cara que isso ia dar merda, seu repórter. A mãe do menino tinha comprado até corrente e cadeado semana passada. Bom, foi o que me falaram, pois a mulher lá debaixo na viela do córrego falou que viu a dona Creusa lá no depósito do Maneco comprando tudo e…

– Ok, correntes, cadeado, obrigado – interrompeu bruscamente.

Recolheu seus materiais, suas anotações, despediu-se distraidamente e saiu pela viela. Estava sem carro, e naquela vizinhança não tinha condução que o levasse até seu bairro. Tomou o primeiro ônibus até o centro. Dormiu. Não, não pensou no caso. Com o tempo, não pensava em nenhum.

Desceu do ônibus, chovia fino. Hesitou: tirava o guarda-chuva? Não, é trabalho demais, a chuva não estava tão forte. Apertou as laterais do casaco e se encaminhou para o outro ponto, desviou de uma praça onde uns mendigos alegremente tomavam um trago de aguardente barata jogando truco com um baralho tão maltrapilho quanto as roupas que trajavam.

– Truco, porra! Pode passar a grana!

– A gente é mendigo, que grana que nóis pode ter?

– Só fingimo aposta porque fica mais divertido!

E emborcavam mais uma dose, dando estridentes gargalhadas na chuva.

Aquilo deu-lhe uma expressão de surpresa. Bebida e jogo deixariam qualquer um indiferente. Por que sorriam tão abertamente? O desprendimento material podia deixar-nos nus, sem qualquer receio de mostrar o que se pode considerar como vergonha.

Entrou numa padaria para comprar cigarros. Não tinha trocado, o caixa olhou com uma cara de incômodo. Na TV, mais um jogo da temporada e quatro senhores gritavam muito seguros de si:

– Toca essa bola, não vê que o filho da puta tá lá sozinho? Passa, porra!

– Tá na cara que esse time vai ser rebaixado.

Sorriu de canto de rosto. Como se a opinião daqueles dois senhores fizessem diferença pro cartola que encampava milhões e milhões.

Acendeu os cigarros com algum custo devido à chuva e se encaminhou ao ponto. Algo o surpreendeu naquela massa cinzenta de trabalhadores extremamente cansados e abatidos, logo perto do dia do pagamento das contas. Se pudesse descrever em cores o que via, certamente seria cinza.

Nem obscuro como o preto, nem alvo como o branco, e ainda assim sem expressar nenhuma cor. Com alguma desatenção lia os letreiros. São Pedro, Jabaquara, Industrial, São Mateus. Todos eles preenchidos de cinza.
Observava uma moça que acabara de descer de um ônibus. Ainda que num golpe de desatenção podia vê-la se integrando na massa, algum tipo de frescor o despertava daquele estado ridículo de inércia. Reparou em seus cabelos. Eram extremamente pretos, lisos de tal forma que quando corria para uma área coberta se confundiam com as luzes laranja da iluminação da rua. Era como se fosse uma tocha. Algo que lhe pudesse trazer algum tipo de calor.

Quase que por um acaso ela se colocou ao seu lado. Bom, não tão ao acaso assim. Uma senhora havia se afastado por achar o cheiro do cigarro desconfortável, além de ser a única área coberta que a moça conseguiu encontrar. Ele permaneceu como um idiota olhando para o brilho alaranjado daqueles cabelos. Por que se deixou encantar tão fácil? A moça decerto percebeu aquela fixação, virou para o lado com uma expressão de indagação, ele respondeu-a com um sorriso de canto de boca. Retribuiu. Os dois voltaram à condição inicial.

Finalmente o ônibus chegou. Vazio, para a surpresa dos dois. Embarcaram. Ele tentava encontrar algum trocado para a passagem, ainda absorto nos pensamentos mais distantes que a mente podia levá-lo. Sentou-se.

Com alguma surpresa ela sentou se ao seu lado e abriu um livro. Ele leu o título: Discurso do Método, de Descartes. A moça fechou o livro e ficou olhando alguns instantes para as suas mãos, frias e brancas, longe de qualquer cuidado como seria natural de qualquer mulher de sua idade. Pensou em tomar alguma coragem e dizer algo. Não o fez, tornou a abrir o livro. As palavras se confundiam.

Ele só olhava pela janela e tentava ver o que havia do lado de fora, mas os pingos que escorriam e o vidro que embaçava não o permitiam fugir daquela constrangedora situação de estar tão perto. Uma contemplação próxima demais. A sensação lhe arrepiava os pelos do braço esquerdo.

Como num súbito os dois tomam algum ímpeto. Respiram fundo e viram as faces. Os olhos castanhos estáticos dele se encontravam com os dela. Milhares de imagens, milhares de lembranças, milhares de sensações. Um leve sorriso aparece em seus rostos.

– Posso saber o seu nome?

Autor: Diego Medeiros / aluno / medeiros.aguiar01@gmail.com

“A Analogia” – por Lucas Juliano

Estou escrevendo uma história.

Eu ainda não sei em qual forma será escrita. Estou pensando que poderia ser um daqueles livros grandes com vocabulário rebuscado, cheio de palavras belas e arcaicas. Eu poderia usar hipérbatos, ou quem sabe mesóclises nas falas das personagens. Se eu escrevesse assim seria uma grande obra, mas até agora a dúvida é se escrevo um conto, uma peça ou um romance. Não consigo decidir qual seria o melhor formato para essa história, qual iria aproveitar mais suas metáforas, mas a ideia do formato clássico me atrai. Feita como os mitos da antiguidade, com a melhor forma e o mais nobre tema. Algo para ser visto pelos filhos e os filhos dos filhos.

Não só a forma, mas o elenco foi difícil de se elaborar. A escolha dois grandes debatedores não foi fácil. Fiquei muito tempo sem saber como eles seriam, qual seria sua crença? Uma das ideias que tive foi de que os personagens fossem padres, entretanto acho que o catolicismo anda com poucos adeptos, e por isso as personagens não criariam lá tanta empatia, talvez até gerariam o contrário. Cogitei também duas personagens históricas, Erasmo e Lutero, com suas discussões sobre livrearbítrio e predestinação. Mas melhor ainda do que ter personagens históricas seria ter duas personagens genéricas. Decidi que seriam dois sábios místicos, conhecedores da natureza humana. Figuras abrangentes o suficiente pra criarem identificação em quase todos que tenham contato com a história.

Sabendo quais são as minhas personagens e tendo alguma ideia do estilo, eu posso então dizer qual a temática em si. Um grande e longo diálogo, tratando dos maiores problemas que afligem os homens. Como Buda fazia com seus discípulos, ou Platão em seus diálogos. Uma longa conversa, onde fossem abordados todos os temas como o conhecimento, o bem e o mal, a existência, a própria linguagem. Os dois mestres iriam discutir, não como adversários, mas como investigadores que com a mais precisa lógica e o mais rigoroso método, desmontariam cada um desses assuntos para que logo depois cada tópico fosse reconstruído de forma definitiva.

Vendo essa narrativa como uma verdadeira obra filosófica, começo a me questionar não apenas sua forma, mas sua extensão. Ter por objetivo abordar os maiores questionamentos até hoje não resolvidos pela humanidade é uma empreitada que vai exigir um texto longo. Chego a me questionar se num número finito de sentenças ou numa quantidade limitada de tempo seria possível que essa narrativa fosse desenvolvida. Talvez esta poderia ser uma narrativa da própria história do conhecimento e da filosofia. Sem fim, mas com um começo.

Quero destacar um ponto presente nessa longa e talvez infindável obra. Em algum momento um dos sábios se dirige ao outro questionando a responsabilidade daqueles que detém o conhecimento. Os que de alguma forma já sabem a realidade e de algum modo a conhecem tal e qual ela é. Estes conhecedores não deveriam ajudar para que os que ainda não conhecem possam vir a conhecer? O outro místico, como todo clássico iria expor sua tese através de um analogia. Proporia então a analogia do bombeiro e do coveiro. Estes dois seriam as duas posições que o sábio pode tomar perante o ignorante. O bombeiro seria aquele que vendo uma pessoa pegando fogo iria ajudar a salvá-la. Esse seria o sábio que ao ver alguém na ignorância, tentaria combatê-la com o conhecimento. Já o coveiro seria outro tipo de sábio. Seria aquele que vendo a pessoa pegando fogo, prepara a cova e a deixa aberta esperando o corpo. O coveiro representa o sábio que ao ver alguém imerso no desconhecimento apenas observa e se deleita ao vê-lo afundando.
Nessa metáfora o morto sou eu.

(Inspirado em Jorge Luis Borges)

Autor: Lucas Juliano / aluno
http://lucasjuliano.wordpress.com/

Conto de Tulio Carreira

Sei que somos G.H.; temos todos uma asquerosa barata interior. Uma barata até abraçável. Uma barata que nos traz de volta àquilo que realmente somos, àquilo que originalmente nos move. A barata somos nós. Nós somos baratas. Baratas oprimidas, escondidas por detrás da geladeira. Mas uma barata não é de todo nojenta, é aquilo que chutamos pra longe porque não aceitamos por perto, boa ou ruim. Chutamos porque a julgamos nojenta sem antes contemplá-la. Mas o nojento precisa ser contemplado para que se compreenda melhor o seu avesso.

E aí, quando nos deparamos com nossa barata, há caos. Há caos porque a barata nos olha de volta, e temos piedade dela enquanto ela se debate, tentando se recompor de nosso chute. No fundo, identificamo-nos com nosso avesso. Mas é difícil engolir que a barata nos seja. Fácil é fazer cara de indignação com o absurdo de termos um lado asqueroso. Um absurdo. Mas um absurdo verídico. E o asco faz parte do absurdo. Detestas víboras? És víbora. Odeias barata? A és. Só que por detrás da geladeira, despercebidamente – por si. Não percebes, mas provavelmente és percebido… (*)

* este é somente um trecho do conto, acesse-o de forma completa neste link: http://goo.gl/i8Tuye

Autor: Tulio Carreira (Aluno)