Material

As coisas não tem porque
Apenas são
Somente elas existem
Ainda que avessas à razão

Cadeira, papel, tijolo, pincel,
coração este
só bate
Não sente nem guarda ninguém
A cabeça também não

O panfleto não tem partido
O sino da catedral não é cristão
Frio, medo ou calor não existem
Só as coisas são.

Alexandre Augusto / aacarvalho5@gmail.com

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Diego Very Loco

Cinza
São mil teorias
Curiosos/ Calçadas/ Rua/ Buzinas
Altura do N° 125
Trânsito interrompido por alguns minutos

II
A cidade gesta homens e restos
É segunda-feira
Homens paridos envoltos em tédio
Andam a 7km/h
À beira do horário comercial

III
Gritos e sustos!
Um homem aborta a manhã
Ás 8h12
Da nublada segunda-feira
Um farol aberto
É prefácio e epitáfio

IV
Cinco segundos mal contados
Diego não corre tanto quando queria
E nunca se importou muito com os sinais de trânsito
“- Que louco!” “- Não faz isso filho!” “- Meu Deus”
Gritos e sustos
Às 8h12 da manhã

V
[Imagine aqui uma cena de atropelamento]

VI
Diego, você ainda não sabia
Mas o espaço-tempo é rigoroso
E raramente há segunda chance
Na floresta de cimento e asfalto.

Bruno Pedro / brunopedrof@gmail.com

Sonhos Inacabados

Em sonhos inacabados o mundo se acaba.
A vida transforma-se em silêncio.
Viva o progresso natural do ser humano.

O passado agora faz parte do nosso futuro.
O presente caminha para a distopia central.
Os perfeitos viverão como os deuses gregos,
Os imperfeitos serão pulverizados.

E os sonhos que sonhávamos serão esquecidos.
E as vidas que salvávamos serão perdidas.
E as utopias que queríamos serão sufocadas.

A ordem e o progresso restaurarão o mundo,
Mesmo a custa do próprio mundo.
Em todos os continentes haverá paz,
Conquistada pela guerra.
A liberdade será direito incondicional,
Dos poucos que serão livres.
E os sonhos de outrora,
Serão apenas sonhos inacabados.

Não adiantará mais falar:
“Amore, te adoro”,
Pois não haverá mais amores
Para serem timidamente escondidos.

Não precisaremos mais educar as crianças,
Pois elas saberão se comportar
Tais como animais domesticados.

Este é o futuro que nos aguarda.
Não matamos o fascismo,
Então o fascismo nos matará.
Restarão apenas:
Sonhos Inacabados.

Lucas Faustino – fb.com/lucfaustino

Poemas de Sérgio Ballaminut

Além do poema A Flor e o Mistério, que foi publicado na versão impressa do PublicArte nº 8, Sérgio, que é servidor da UFABC, nos enviou outros belíssimos poemas. Seguem abaixo alguns deles e a capa do livro em que foram lançados, Os Poetas do Meu Canto, primeiro livro de poesias de Sérgio Ballaminut:

os-poetas-do-meu-canto-capa

Capa do livro

Página “Os Poetas do Meu Canto”

 

A FLOR E O MISTÉRIO

A poesia é amarela. Brilha
Às vezes roxa, outras rosa. Prosa
É lilás. Paixão
Para uns, tolice
Outros, vida
Suprema. Precisa
Requisito fatal.

A poesia é carmim
É o mel, o recheio
Do texto, contexto
Próprio texto a brotar.

A poesia é clara
Macia
Doce
Extremamente doce.

A poesia são olhos brilhantes
Mares esparsos de morros antigos
Presentes
Extremamente sensíveis e presentes
Tradução do profundo
Em leves traços precisos.

A poesia é dúvida
Possibilidade
Incerteza
É desejo a poesia
Desejo de um dia
Abraçar o contexto
E lembrar desse texto
Com muita alegria.

(Sérgio Ballaminut in Os Poetas do Meu Canto, Ed. Polo Books, 2013)

– – – – –

POEMA NÍTIDO

Eram, de repente, nítidos pra mim
O rio
Cujas densas e escuras águas puras
Corriam em mansa e delicada corredeira
As estrelas duas
Cujo brilho especial
Imprimiam ao céu tão claro
Uma doçura angelical
A armadilha
Cuja isca úmida e quente
De um mel raro, envolvente
O bem faria, jamais mal.

Era assim
E, de repente, nítido pra mim
Que viria a ser fatal.

(Sérgio Ballaminut in Os Poetas do Meu Canto, Ed. Polo Books, 2013)

– – – – –

TARDE DEMAIS

Legião de anjos barrocos
Que, as nuvens, invade
Do romântico céu
Que se nos apresenta
Nos finais de tarde
Em que sol, quente, arde
Tardes de verão
Já não verão
Bucolismos pastoris
Cenário desbotado, infeliz
Só sol, só sol
De cuja luz, aos poucos
Ressurgem anjos barrocos
Não poucos
A nos contemplar com sua paz
A tirar de harpas sons sutis
E tão reais
Quanto o cais
De romântica nuvem
Em bucólica tarde
Em que sol não mais arde
Pois já é muito tarde
É tarde…
Demais.

(Sérgio Ballaminut in Os Poetas do Meu Canto, Ed. Polo Books, 2013)

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ENTRE MARIAS E MANIAS

Entre Marias e manias
Sobrevivi
A tantos contratempos
Contra-sensos
A tantos momentos
Turbulentos
Truculentos
Momentos que vivi
Nos quais entrei
Sofri
Dos quais saí
Sobrevivi
Estou aqui, ali
Em todos os olhares
Todos os lugares
Cinemas e teatros
Praças, bares
Patamares
Em que já estive
E fiz com que soassem
Pelos cantos, pelos ares
Versos duros
Obscuros
Estrofes de muros
Poemas de aço
Perdidos no espaço
Que a bala abriu
Por onde o sangue jorrou
A vida brecou
E a esperança saiu.

(Sérgio Ballaminut in Os Poetas do Meu Canto, Ed. Polo Books, 2013)
https://www.facebook.com/ospoetasdomeucanto