Poesia de Eloísa Estrela

Eu deveria começar com uma frase…
Mas não sei se quero…
Este deveria ser um poema…
Mas não sei se é…
Não sei se quero escrever esse poema…
Não sei se quero entrar nesse esquema… de parafrasear…
Não sei se quero leite puro ou leite com café…
Garfo ou colher…
Ter o que vier…
Ah este não saber…
Para muitos sinônimo de falta de posição…
Mas para mim a verdadeira omissão…
Sempre este não saber…
Não sei se quero….
Não sei se posso…
Não sei se vivo…
Não sei se durmo…
Só sei que nada sei…
E o fato de não saber
Vem me eximindo do medo deste saber…
Que não tem nada a ver com a falta de conhecimento…
Mas sim com o medo de viver…

 
Eloisa Estrela Oliveira / Aluna
eloisa.estrela@bol.com.br

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Zéfiro maníaco-depressivo

Brisa estival
De uma noite sem graça
Aflora a vontade danada
de sair por aí
sem sentido
sem sua alma
E te tornas
sensitivo,
sensual.
Mas não te achas
Perca a linha
Desatina e vai
Absorva a tal malícia
Virgem guia
De vontades sádicas
E intenções quiméricas
Açoita o vento álgido
De uma tarde chovediça
Trazendo o desespero
Dizendo vem
volte de novo
verme cômico
E te tornas
vultuoso,
vômico.
E enfim te achas.
Itamar Spira / Aluno – blogdoitamario.blogspot.com.br

Proletário acorda

-Teu sonho não vai se realizar-
Tu tens que provar
Que a máquina, sabes engrenar.
Toma teu café amargo
Comprado com teu dinheiro suado.
Depois, enfrenta a realidade
Cumprindo tua função na sociedade.
Bate o cartão,
Respeite o patrão
Para ganhar o pão
E não ficar sem chão.
Guarda teus demônios
Dentro de teus pudores.
A moralidade
Controlando a sociedade.
Compre pessoas.
Valorize objetos.
Consciência demasiada,
Vagando pela cidade,
Como alma desprezada,
Temendo a felicidade.
Navio negreiro não cruza o oceano,
Mas o dinheiro continua escravizando.
Promovendo o caos,
Em busca do cais.
Vidas trocadas
Por cédulas desenhadas.
Indivíduos acoplados
Num mecanismo magnífico
Lucros privatizados,
Prejuízos socializados.
Tua alma sugada,
Fadada,
A um eterno tanto faz.
Elisa Bettega / Aluna – elisa_bettega@hotmail.com

Medusa

        E ela era toda medusa. Só sua visão lhe deixava como pedra.
“– São como serpentes…”. A frase não lhe saía da cabeça, co-mo que sussurrada por um fantasma. Ecoava pelo quarto e lhe em-baçava a visão, e ele ainda assim, as via. Eram os seus cabelos, ser-pentes de cobre, escorrendo como metal derretido, voando ao re-dor do seu pescoço, mordendo-lhe a nuca, atacando-lhe as costas, revolvendo no seu corpo de menina mulher. Eram seus dedos, ser-pentes finas e frágeis, mas que mordiam as suas costas e que raste-javam pelo seu corpo, nadando em suor. E as pernas dela escorre-gavam pelas suas, serpentes grossas exsudando veneno, apertando seu corpo, jiboias da cor da terra, da cor da cerâmica, da cor do sol se pondo na areia. A língua era uma serpente rubra, pimenta viva e irrequieta, mordia-lhe a própria língua, os lábios, o queixo, os ombros, os braços, o peito. A mordida era como cócegas, e ele ria e arfava, soluçando, pois a graça lhe pinicava a garganta. E ele ria mais alto enquanto enfrentava as serpentes, por que o mesmo fan-tasma sussurrava com uma voz que era igual ao crepitar do fogo: “–… escreverão canções sobre o amor de vocês”.
E era mesmo como um sol entre eles, porque só isso podia ex-plicar o calor, ou isso, ou era fogo com asas e eles morreriam num incêndio, e então eram ambos serpentes, se embolando debaixo da terra (ou dentro do Sol? ele não saberia mais dizer), e então eram os dois uma serpente só rastejando no fogo, e então tinham patas e eram salamandras lambendo o fogo, e suas patas eram serpentes e suas línguas também, e suas bocas destilavam peçonha doce e sal-gada, de açafrão e de canela, de suor e de saudade.
E ele morria enquanto ouvia as palavras que o fantasma, rindo-se dele, lhe dissera uma vez: “–São como serpentes… você verá… e se lembrará do que eu te disser hoje, porque escreverão canções so-bre o amor de vocês, sobre como ela foi a sua vida, e também o seu fim. Como ela foi o tição que acendeu a fogueira e como você deixou de ser lenha fresca para ser apenas o carvão incendiado que sobrou no fim”.
Ele se lembrou de adormecer no fim, mas antes, por dentro, ele concordou com o que o fantasma dissera, e não se importou nem um pouco.

Vítor Torres Freire / Aluno – vitor5torres@hotmail.com

Prosopoética do ser-amor

O “amor” em sua “essência” é multi-gênero.
Ou não se há de convir que é impossível amar um homem,
sem que tanto mais se ame
a mulher que nele também há?
Ohh ledo engano destes varões tão pueris
quando pensam isolar da substância a sua essência,
posto que no mundo, além de gradações (espectra) nada existe.
Subvertamos, pois, todas as formas da intuição maniqueísta.
E assim também para com todo paradigma
solidamente ancorado na ontodicotomia.]
Em nosso pobremente equipado
Laboratório de Metafísica,
os únicos aparatos são a Feroz Inquisição
e um espectrômetro incalibrável.
As pseudo-dicotomias, pois, destruamos.
Não haveríamos assim todos de convir
que as entidades estão de tal forma dispostas,
que assim definem-se mutuamente?
Afinal, pode, sem a sua alma feminina,
o homem jamais achar seu centro de gravidade?
Não perde, sem a sua alma masculina,
a mulher as referências cardinais de feminilidade?
E por que assim, no impeto de nomear,
aos rótulos rasos circunscrever-nos-hemos?
Ohh efêmeros! Ousem imaginar o vigor que resultaria de um culto
que em seu Gênesis isto como epígrafe tivesse:
“No início, havia o verbo. Deus, então,
no exercício de sua magnífica intuição cósmica,
preencheu a caixa craniana da existência
com o teatro cartesiano da mente,
que em seu pleno afã digno de devoção sofocleana,
descobriu-se farsa”.
Ou a farsa não inspira, enfim,
tanto mais quanto a tragédia?
“Assin deberia empezar Genesis!” – sentencia o oráculo.
A Costela de Adão
o tendão de Aquiles revelou-se:
o ponto nevrálgico que todo o Esqueleto derrui.
E o fato de a flechas vulnerável ser,
do Arqueiro exímio humilde Atirador faz.
Mutat quod mutari potest. Carpie diem. Dilige fati seriem superant.

 
Karl Malone / Aluno – karlbrasnorge@gmail.com