Ficção

Em um dia frio, a moça decide ir a pé para a faculdade. O dia está ruim, a semana está ruim, o mês – o ano inteiro tem sido péssimo. Os antidepressivos nunca fizeram muito efeito e ela já está perdendo as esperanças. Vai caminhando mecanicamente, sem nem pensar no caminho. Já está cansada de tentar encontrar uma maneira de se sentir bem, feliz, viva. Nada funciona. Após alguns minutos de caminhada, avista um homem aparentando uns 60 anos de idade sentado no chão, todo esfarrapado, muito magro e com o semblante tristonho. Sente-se culpada por ser tão infeliz mesmo tendo casa, comida, roupa lavada e saúde; mesmo cursando nível superior; mesmo não sendo considerada por todos uma pessoa vagabunda e preguiçosa.

Então, sem que perceba, para na frente do tal homem e fita-o com um olhar de piedade. Ou seria de empatia? Talvez as duas coisas. Pensa em dar-lhe uns trocados, mas sabe que isso não mudaria nada. Lembra-se do lanche que carrega na mochila. Finalmente percebe que está ali parada a observar o homem e vê que ele também a observa (provavelmente intrigado com o fato de não ser invisível para ela). Ele tem o olhar apreensivo e ao mesmo tempo distante. Como se um lapso de esperança lhe tivesse acometido e desaparecido no instante seguinte.

A jovem se aproxima, senta-se ao lado do velho e lhe entrega o lanche que estava na mochila. Hesitante, ele aceita a gentileza, murmura qualquer coisa parecida com um “obrigado” e começa a comer. Ambos quedam-se ali por alguns minutos, pensativos. Ela se perguntando por que nunca havia feito aquilo antes em sua vida; ele sentindo-se grato e ao mesmo tempo miserável, por depender de favores de desconhecidos para permanecer vivo. Um não sabe o que se passa na cabeça do outro, porém tal momento faz com que sintam-se um pouquinho mais vivos. De alguma forma, eles se ajudam.

O homem finaliza a refeição e novamente agradece. A moça se levanta e, antes de ir embora, retira seu cachecol e o entrega ao velho. Aquilo sim o surpreende, pois ele permanece imóvel por alguns segundos antes de recolher o presente com um aceno de gratidão. A jovem se retira e retoma seu caminho.

Sem que percebam, ambos sorriem.

Autora: Cristiane dos Santos Costa

https://outratrama.wordpress.com/2014/10/25/ficcao/

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