Desenhos de Allan Floriano Teixeira

Um dos desenhos de Allan foi escolhido para ser a capa da 3ª edição da versão impressa do PublicArte, porém foi publicado em preto e branco, de acordo com a proposta da versão em papel do zine. Agora, segue o mesmo desenho em suas cores originais, e mais algumas das obras produzidas pelo artista.

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Lagarto (3)

Lobos (3)

Raposinha (2)

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Ps. A página de divulgação das obras de Allan é fb.com/UmTracoFino

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“Fim de Noite” – por Diego Medeiros

Voltava do seu trabalho como jornalista. Uma mulher tinha enfiado a faca nas costas dum sujeito que havia entrado em sua casa para cobrar dívida de drogas do seu filho. O tal traficante morreu na hora. O jornalista anotava os relatos dos vizinhos, da mulher, do filho e dos policiais numa loquacidade nervosa e num certo desinteresse, era o quinto caso nessa semana.

– O sujeito é o maior vagabundo, seu moço. Não trabalha, não estuda, só dá problema pra mãe dele. É óbvio que isso ia dar… Pode falar? É palavra suja…

– Pode falar sim, não vai pro jornal não. – respondeu sem levantar os olhos do caderno.

– Tava na cara que isso ia dar merda, seu repórter. A mãe do menino tinha comprado até corrente e cadeado semana passada. Bom, foi o que me falaram, pois a mulher lá debaixo na viela do córrego falou que viu a dona Creusa lá no depósito do Maneco comprando tudo e…

– Ok, correntes, cadeado, obrigado – interrompeu bruscamente.

Recolheu seus materiais, suas anotações, despediu-se distraidamente e saiu pela viela. Estava sem carro, e naquela vizinhança não tinha condução que o levasse até seu bairro. Tomou o primeiro ônibus até o centro. Dormiu. Não, não pensou no caso. Com o tempo, não pensava em nenhum.

Desceu do ônibus, chovia fino. Hesitou: tirava o guarda-chuva? Não, é trabalho demais, a chuva não estava tão forte. Apertou as laterais do casaco e se encaminhou para o outro ponto, desviou de uma praça onde uns mendigos alegremente tomavam um trago de aguardente barata jogando truco com um baralho tão maltrapilho quanto as roupas que trajavam.

– Truco, porra! Pode passar a grana!

– A gente é mendigo, que grana que nóis pode ter?

– Só fingimo aposta porque fica mais divertido!

E emborcavam mais uma dose, dando estridentes gargalhadas na chuva.

Aquilo deu-lhe uma expressão de surpresa. Bebida e jogo deixariam qualquer um indiferente. Por que sorriam tão abertamente? O desprendimento material podia deixar-nos nus, sem qualquer receio de mostrar o que se pode considerar como vergonha.

Entrou numa padaria para comprar cigarros. Não tinha trocado, o caixa olhou com uma cara de incômodo. Na TV, mais um jogo da temporada e quatro senhores gritavam muito seguros de si:

– Toca essa bola, não vê que o filho da puta tá lá sozinho? Passa, porra!

– Tá na cara que esse time vai ser rebaixado.

Sorriu de canto de rosto. Como se a opinião daqueles dois senhores fizessem diferença pro cartola que encampava milhões e milhões.

Acendeu os cigarros com algum custo devido à chuva e se encaminhou ao ponto. Algo o surpreendeu naquela massa cinzenta de trabalhadores extremamente cansados e abatidos, logo perto do dia do pagamento das contas. Se pudesse descrever em cores o que via, certamente seria cinza.

Nem obscuro como o preto, nem alvo como o branco, e ainda assim sem expressar nenhuma cor. Com alguma desatenção lia os letreiros. São Pedro, Jabaquara, Industrial, São Mateus. Todos eles preenchidos de cinza.
Observava uma moça que acabara de descer de um ônibus. Ainda que num golpe de desatenção podia vê-la se integrando na massa, algum tipo de frescor o despertava daquele estado ridículo de inércia. Reparou em seus cabelos. Eram extremamente pretos, lisos de tal forma que quando corria para uma área coberta se confundiam com as luzes laranja da iluminação da rua. Era como se fosse uma tocha. Algo que lhe pudesse trazer algum tipo de calor.

Quase que por um acaso ela se colocou ao seu lado. Bom, não tão ao acaso assim. Uma senhora havia se afastado por achar o cheiro do cigarro desconfortável, além de ser a única área coberta que a moça conseguiu encontrar. Ele permaneceu como um idiota olhando para o brilho alaranjado daqueles cabelos. Por que se deixou encantar tão fácil? A moça decerto percebeu aquela fixação, virou para o lado com uma expressão de indagação, ele respondeu-a com um sorriso de canto de boca. Retribuiu. Os dois voltaram à condição inicial.

Finalmente o ônibus chegou. Vazio, para a surpresa dos dois. Embarcaram. Ele tentava encontrar algum trocado para a passagem, ainda absorto nos pensamentos mais distantes que a mente podia levá-lo. Sentou-se.

Com alguma surpresa ela sentou se ao seu lado e abriu um livro. Ele leu o título: Discurso do Método, de Descartes. A moça fechou o livro e ficou olhando alguns instantes para as suas mãos, frias e brancas, longe de qualquer cuidado como seria natural de qualquer mulher de sua idade. Pensou em tomar alguma coragem e dizer algo. Não o fez, tornou a abrir o livro. As palavras se confundiam.

Ele só olhava pela janela e tentava ver o que havia do lado de fora, mas os pingos que escorriam e o vidro que embaçava não o permitiam fugir daquela constrangedora situação de estar tão perto. Uma contemplação próxima demais. A sensação lhe arrepiava os pelos do braço esquerdo.

Como num súbito os dois tomam algum ímpeto. Respiram fundo e viram as faces. Os olhos castanhos estáticos dele se encontravam com os dela. Milhares de imagens, milhares de lembranças, milhares de sensações. Um leve sorriso aparece em seus rostos.

– Posso saber o seu nome?

Autor: Diego Medeiros / aluno / medeiros.aguiar01@gmail.com

“A Analogia” – por Lucas Juliano

Estou escrevendo uma história.

Eu ainda não sei em qual forma será escrita. Estou pensando que poderia ser um daqueles livros grandes com vocabulário rebuscado, cheio de palavras belas e arcaicas. Eu poderia usar hipérbatos, ou quem sabe mesóclises nas falas das personagens. Se eu escrevesse assim seria uma grande obra, mas até agora a dúvida é se escrevo um conto, uma peça ou um romance. Não consigo decidir qual seria o melhor formato para essa história, qual iria aproveitar mais suas metáforas, mas a ideia do formato clássico me atrai. Feita como os mitos da antiguidade, com a melhor forma e o mais nobre tema. Algo para ser visto pelos filhos e os filhos dos filhos.

Não só a forma, mas o elenco foi difícil de se elaborar. A escolha dois grandes debatedores não foi fácil. Fiquei muito tempo sem saber como eles seriam, qual seria sua crença? Uma das ideias que tive foi de que os personagens fossem padres, entretanto acho que o catolicismo anda com poucos adeptos, e por isso as personagens não criariam lá tanta empatia, talvez até gerariam o contrário. Cogitei também duas personagens históricas, Erasmo e Lutero, com suas discussões sobre livrearbítrio e predestinação. Mas melhor ainda do que ter personagens históricas seria ter duas personagens genéricas. Decidi que seriam dois sábios místicos, conhecedores da natureza humana. Figuras abrangentes o suficiente pra criarem identificação em quase todos que tenham contato com a história.

Sabendo quais são as minhas personagens e tendo alguma ideia do estilo, eu posso então dizer qual a temática em si. Um grande e longo diálogo, tratando dos maiores problemas que afligem os homens. Como Buda fazia com seus discípulos, ou Platão em seus diálogos. Uma longa conversa, onde fossem abordados todos os temas como o conhecimento, o bem e o mal, a existência, a própria linguagem. Os dois mestres iriam discutir, não como adversários, mas como investigadores que com a mais precisa lógica e o mais rigoroso método, desmontariam cada um desses assuntos para que logo depois cada tópico fosse reconstruído de forma definitiva.

Vendo essa narrativa como uma verdadeira obra filosófica, começo a me questionar não apenas sua forma, mas sua extensão. Ter por objetivo abordar os maiores questionamentos até hoje não resolvidos pela humanidade é uma empreitada que vai exigir um texto longo. Chego a me questionar se num número finito de sentenças ou numa quantidade limitada de tempo seria possível que essa narrativa fosse desenvolvida. Talvez esta poderia ser uma narrativa da própria história do conhecimento e da filosofia. Sem fim, mas com um começo.

Quero destacar um ponto presente nessa longa e talvez infindável obra. Em algum momento um dos sábios se dirige ao outro questionando a responsabilidade daqueles que detém o conhecimento. Os que de alguma forma já sabem a realidade e de algum modo a conhecem tal e qual ela é. Estes conhecedores não deveriam ajudar para que os que ainda não conhecem possam vir a conhecer? O outro místico, como todo clássico iria expor sua tese através de um analogia. Proporia então a analogia do bombeiro e do coveiro. Estes dois seriam as duas posições que o sábio pode tomar perante o ignorante. O bombeiro seria aquele que vendo uma pessoa pegando fogo iria ajudar a salvá-la. Esse seria o sábio que ao ver alguém na ignorância, tentaria combatê-la com o conhecimento. Já o coveiro seria outro tipo de sábio. Seria aquele que vendo a pessoa pegando fogo, prepara a cova e a deixa aberta esperando o corpo. O coveiro representa o sábio que ao ver alguém imerso no desconhecimento apenas observa e se deleita ao vê-lo afundando.
Nessa metáfora o morto sou eu.

(Inspirado em Jorge Luis Borges)

Autor: Lucas Juliano / aluno
http://lucasjuliano.wordpress.com/